
Fazer hemodiálise muda a rotina, mas não significa deixar de viver com autonomia e qualidade de vida. Alimentação, hidratação, cuidados com o acesso vascular, acompanhamento médico e apoio da família são alguns dos fatores que podem fazer diferença no dia a dia de quem realiza o tratamento.
Para explicar os principais cuidados e desafios da rotina de quem faz hemodiálise, conversamos com o Dr. André Pereira, nefrologista e coordenador da Nefrologia do Hospital da Baleia.
O que é hemodiálise?
A hemodiálise é um tratamento utilizado quando os rins não conseguem desempenhar adequadamente suas funções.
Os rins são responsáveis, entre outras funções, por filtrar o sangue, retirar substâncias que precisam ser eliminadas pelo organismo e ajudar a controlar o equilíbrio de líquidos e sais minerais.
Durante a hemodiálise, o sangue passa por uma máquina que realiza parte dessas funções, removendo resíduos e excesso de líquidos antes de devolvê-lo ao organismo.
O tratamento é realizado em sessões regulares, conforme a necessidade de cada paciente e a indicação da equipe médica.
A hemodiálise não é apenas um procedimento realizado algumas vezes por semana. Ela passa a fazer parte da rotina do paciente e exige uma série de cuidados dentro e fora da clínica.
Quais são os principais desafios de quem faz hemodiálise?
Um dos principais desafios é adaptar a rotina aos horários das sessões e aos cuidados necessários entre elas.
Além do tempo dedicado ao tratamento, o paciente pode precisar fazer mudanças na alimentação e no consumo de líquidos, utilizar medicamentos regularmente e cuidar do acesso vascular utilizado para a hemodiálise.
Também existe um aspecto emocional importante. Conviver com uma condição crônica e com um tratamento contínuo pode gerar sentimentos de medo, insegurança, cansaço, ansiedade ou frustração.
Por isso, o cuidado não deve se limitar aos exames e à sessão de hemodiálise. A qualidade de vida também deve fazer parte do tratamento.
Quais hábitos podem melhorar a qualidade de vida durante a hemodiálise?
Pequenas atitudes incorporadas à rotina podem ajudar o paciente a se adaptar melhor ao tratamento.
Entre elas estão:
- manter os horários das sessões e evitar faltas;
- utilizar corretamente os medicamentos prescritos;
- seguir as orientações individualizadas da equipe de saúde;
- cuidar adequadamente do acesso vascular;
- manter uma alimentação adequada à condição clínica;
- controlar o consumo de líquidos conforme a orientação da equipe;
- manter atividades físicas quando liberadas pelo médico;
- preservar momentos de lazer e convivência social;
- manter consultas e exames de acompanhamento;
- conversar com a equipe quando alguma dificuldade estiver atrapalhando a rotina.
Não existe uma rotina ideal que sirva para todos os pacientes. As recomendações precisam considerar as condições clínicas, os exames e as necessidades de cada pessoa.
Como deve ser a alimentação de quem faz hemodiálise?
A alimentação é uma parte importante do tratamento. Entretanto, não existe uma dieta única para todos os pacientes em hemodiálise.
A quantidade de proteínas, sódio, potássio, fósforo e outros nutrientes pode precisar ser ajustada de acordo com os exames e as características de cada pessoa.
Por isso, o paciente não deve retirar alimentos ou adotar dietas restritivas por conta própria.
O acompanhamento com a equipe de saúde, incluindo nutricionista quando indicado, permite definir quais alimentos precisam ser priorizados ou restringidos.
O paciente em hemodiálise pode beber água normalmente?
A quantidade de líquidos que pode ser consumida varia de acordo com a produção de urina, o ganho de peso entre as sessões, a condição cardíaca e outras características individuais.
O excesso de líquidos pode se acumular no organismo entre as sessões e provocar problemas como inchaço, falta de ar e aumento da pressão arterial.
Por isso, a quantidade adequada de líquidos deve ser definida pela equipe que acompanha o paciente.
Uma dica prática é lembrar que o controle de líquidos não envolve apenas água. Bebidas, sucos, café, leite, sopas, gelatinas, gelo e outros alimentos com grande quantidade de água também podem contribuir para a ingestão total de líquidos.
Quais sinais de alerta o paciente e a família não devem ignorar?
Alguns sintomas precisam ser comunicados à equipe de saúde, especialmente quando são novos, intensos ou diferentes do habitual.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
- falta de ar;
- dor no peito;
- inchaço importante;
- ganho de peso muito rápido entre as sessões;
- febre;
- sangramento;
- alteração importante da pressão arterial;
- fraqueza ou mal-estar intenso;
- confusão ou alteração do nível de consciência;
- sinais de infecção no local do acesso vascular.
No caso da fístula ou do cateter utilizado para a hemodiálise, alterações como vermelhidão, calor, dor, secreção ou sangramento devem ser avaliadas pela equipe.
Em caso de sintomas graves ou emergência, o paciente deve procurar atendimento médico imediatamente.
Como a família pode ajudar sem tirar a autonomia do paciente?
O apoio da família pode fazer uma diferença importante, mas ajudar não significa assumir o controle da vida do paciente.
Uma das principais formas de apoio é perguntar o que a pessoa precisa, em vez de presumir que sabe o que é melhor para ela.
A família pode ajudar acompanhando consultas quando o paciente desejar, auxiliando na organização de medicamentos, refeições e deslocamentos e oferecendo companhia nos momentos mais difíceis.
Também é importante evitar cobranças excessivas.
Frases como “você não pode comer isso”, “você precisa beber menos água” ou “você nunca pode faltar à hemodiálise” podem transformar o familiar em um fiscal do tratamento.
O ideal é construir uma relação de parceria, respeitando a autonomia do paciente e deixando que as orientações clínicas sejam conduzidas pela equipe de saúde.
Quais são os principais mitos sobre hemodiálise?
“Quem começa a hemodiálise não pode mais ter uma vida normal.”
A hemodiálise exige adaptações, mas os pacientes podem manter atividades profissionais, familiares, sociais e de lazer, de acordo com suas condições de saúde e possibilidades.
“A hemodiálise cura a doença dos rins.”
A hemodiálise substitui parte das funções que os rins deixaram de desempenhar adequadamente. Ela é um tratamento, não uma “cura” para a doença renal que levou à necessidade da terapia.
“Quem faz hemodiálise não pode fazer atividade física.”
A atividade física pode ser benéfica para muitos pacientes, mas deve ser adequada às condições individuais e realizada com orientação da equipe de saúde.
“É preciso beber muita água para limpar os rins.”
Essa orientação não se aplica a quem está em hemodiálise. Dependendo da função renal e da quantidade de urina produzida, o paciente pode precisar controlar a ingestão de líquidos.
“A alimentação precisa ser totalmente restritiva.”
Não necessariamente. O plano alimentar deve ser individualizado. O objetivo é adequar a alimentação às necessidades do paciente, preservando o máximo possível uma relação saudável e prazerosa com a comida.
Como cuidar da saúde emocional durante um tratamento contínuo?
A saúde emocional é parte do cuidado.
A necessidade de realizar sessões regulares, as mudanças na alimentação, as limitações de líquidos e a própria condição de saúde podem gerar sofrimento emocional.
O paciente não precisa enfrentar isso sozinho.
Conversar com familiares, amigos e profissionais da equipe de saúde pode ajudar a identificar dificuldades e encontrar estratégias para lidar com elas.
Quando sentimentos de tristeza, ansiedade, desânimo ou isolamento se tornam persistentes ou começam a interferir na rotina, é importante comunicar a equipe de saúde e buscar suporte psicológico ou psiquiátrico quando indicado.
Também é importante preservar atividades que tragam sentido para a vida: hobbies, encontros com pessoas queridas, estudos, trabalho, atividades culturais e momentos de lazer, sempre respeitando as condições clínicas do paciente.
Comecei a fazer hemodiálise. O que preciso saber?
É natural ter muitas dúvidas no início do tratamento.
O paciente deve aproveitar as primeiras semanas para conhecer sua rotina de cuidados e estabelecer uma relação próxima com a equipe que o acompanha.
Algumas perguntas importantes são:
- Qual é o meu horário e frequência de sessões?
- Qual quantidade de líquidos posso consumir diariamente?
- Como deve ser minha alimentação?
- Quais medicamentos preciso utilizar?
- Como devo cuidar do meu acesso vascular?
- Quais sintomas precisam ser comunicados à equipe?
- Posso trabalhar ou praticar atividade física?
- O que devo fazer se não puder comparecer a uma sessão?
- Como posso manter minhas atividades sociais e familiares?
Não tenha receio de perguntar. Entender o tratamento ajuda o paciente a participar ativamente das decisões relacionadas à própria saúde.
Existe um cuidado simples que pode fazer muita diferença?
Um dos pontos que muitas vezes acaba sendo esquecido é o cuidado com o acesso vascular.
A fístula arteriovenosa ou o cateter é fundamental para a realização da hemodiálise e precisa receber cuidados específicos.
No caso da fístula, por exemplo, o paciente deve seguir as orientações da equipe sobre proteção do braço, higiene e observação de alterações.
Outra recomendação simples, mas importante, é não esconder da equipe aquilo que está acontecendo.
Se o paciente está com dificuldade para controlar a ingestão de líquidos, não está conseguindo seguir a alimentação recomendada, está sentindo sintomas diferentes ou está emocionalmente sobrecarregado, deve conversar com os profissionais que o acompanham.
A equipe de saúde precisa conhecer as dificuldades reais da rotina para conseguir ajudar.
O que a equipe de Nefrologia do Hospital do Baleia busca no cuidado aos pacientes?
O cuidado de quem faz hemodiálise envolve muito mais do que a realização das sessões.
Na Nefrologia do Hospital do Baleia, o acompanhamento busca considerar o paciente de maneira integral, levando em conta sua condição clínica, rotina, alimentação, aspectos emocionais e contexto familiar.
O objetivo é que o tratamento seja realizado com segurança e que o paciente possa, dentro das suas possibilidades, manter autonomia e qualidade de vida.
Uma mensagem para pacientes e familiares
Receber a indicação de hemodiálise pode ser assustador, especialmente no início. É comum ter dúvidas e imaginar que a doença vai impedir a realização de atividades que fazem parte da vida.
Mas o tratamento não precisa significar o fim da autonomia.
Conhecer a própria condição, manter uma relação de confiança com a equipe de saúde e participar ativamente do tratamento são passos importantes para construir uma nova rotina.
Para os familiares, o principal papel é estar ao lado: oferecer apoio, respeitar a autonomia e ajudar quando for necessário.
E, para o paciente, fica uma mensagem importante: não tenha medo de perguntar, de falar sobre suas dificuldades e de buscar ajuda. O tratamento é uma parte da sua vida, mas não precisa definir toda a sua vida.
Perguntas frequentes sobre hemodiálise
Quem faz hemodiálise pode trabalhar?
Sim. Dependendo das condições de saúde, da rotina de tratamento e do tipo de atividade profissional, muitos pacientes conseguem continuar trabalhando. A rotina deve ser adaptada às necessidades individuais.
Quem faz hemodiálise pode viajar?
Em muitos casos, sim. A viagem precisa ser planejada com antecedência, principalmente para organizar as sessões de hemodiálise no destino. O paciente deve conversar previamente com sua equipe de saúde.
Quem faz hemodiálise pode praticar exercícios?
A atividade física pode ser recomendada para muitos pacientes, desde que adequada à condição clínica e orientada pela equipe de saúde.
Por que quem faz hemodiálise precisa controlar a quantidade de água?
Quando os rins não conseguem eliminar adequadamente o excesso de líquidos, a água pode se acumular no organismo entre as sessões, aumentando o risco de inchaço, falta de ar e pressão arterial elevada.
Quem faz hemodiálise precisa fazer dieta?
A alimentação precisa ser adequada à condição renal, mas não existe uma dieta igual para todos. As recomendações devem ser individualizadas de acordo com exames, produção de urina, medicamentos e outras condições de saúde.
O que acontece se o paciente faltar à hemodiálise?
As sessões são programadas de acordo com as necessidades do organismo. Faltar ou alterar sessões sem orientação da equipe pode levar ao acúmulo de líquidos e substâncias que precisam ser removidas do sangue. Caso o paciente não possa comparecer, deve entrar em contato com a unidade responsável pelo tratamento.
A hemodiálise dói?
A sessão em si geralmente não causa dor contínua, embora a punção da fístula possa causar algum desconforto. Durante o tratamento podem ocorrer sintomas como queda da pressão, cãibras ou mal-estar, que devem ser comunicados à equipe.
A hemodiálise é para sempre?
Depende da causa da insuficiência renal e da situação clínica de cada paciente. Para algumas pessoas, a terapia pode ser necessária de forma prolongada; em outras situações, pode haver recuperação da função renal. O transplante renal também pode ser uma opção para pacientes selecionados.
O paciente em hemodiálise pode levar uma vida normal?
A hemodiálise exige adaptações e cuidados, mas isso não significa que o paciente precise abandonar todos os seus projetos e atividades. Com acompanhamento adequado, é possível buscar uma rotina ativa e com qualidade de vida.
Adaptação
Quando chega o diagnóstico, é essencial que o paciente entenda seu papel para manter a saúde e qualidade de vida. Para isso, ele conta com apoio da equipe multidisciplinar do Hospital da Baleia, que faz o acolhimento e apoia com informação, cuidado e atendimento individualizado quando necessário. Psicólogos, nutricionistas, enfermeiros, médicos, todos preparados para contribuir com a transição de cada paciente durante a fase inicial do tratamento.
Redação: Marlon Marques


